Troca
de gestão fecha centenas de salas do MOVA
Quando o educador Paulo Freire era secretário
de Educação da cidade de São Paulo,
na gestão petista da prefeita Luiza Erundina
(1989-1992), foi criado o Movimento de Alfabetização
(Mova), política pública que estabelece
uma parceria entre sociedade civil e governos municipais
para a alfabetização de jovens e adultos.
De um lado, as organizações comunitárias
ligadas a movimentos sociais indicam educandos vinculados
às comunidades e organizam os cursos, e, do outro
lado, as prefeituras oferecem formação
continuada aos educadores e bancam os custos. A experiência
se multiplicou e, desde então, foi desenvolvida
por administrações populares em centenas
de cidades pelo país.
As administrações mais conservadoras costumam
dificultar a continuidade do trabalho dos Movas. Nesse
ano, em que se iniciaram as novas gestões nas
prefeituras municipais, a situação não
foi diferente. De acordo com as coordenadorias locais
dos Movas de algumas grandes cidades brasileiras, os
problemas que vêm enfrentando são inúmeros.
Elas denunciam que, em Belém, ocorreu a extinção
do convênio com o Mova e o fim de mais de 300
classes; em São Paulo, o fechamento de mais de
200 turmas por rigidez da Secretaria de Educação
ao seguir o número mínimo de alunos por
sala; em Porto Alegre, o atraso no pagamento tem levado
muitos educadores a desistirem. A Secretaria Municipal
de Educação de Belém confirma o
fim do convênio com o Mova, mas a paulista e a
porto alegrense negam essas denúncias.
Quando o prefeito de Belém, Duciomar Costa (PTB),
assumiu seu cargo, em janeiro desse ano, ele fechou
mais de 500 salas de alfabetização de
jovens e adultos. Mais tarde, reabriu 183 turmas que
estavam ligadas ao programa Brasil Alfabetizado, que
recebe recursos do governo federal. O convênio
com o Mova, no entanto, que completou oito anos de existência
na cidade, não foi renovado. Além disso,
o Mova de Belém afirma que todos os educadores
que trabalharam até dezembro de 2004, e teriam
o direito de receber o salário no mês seguinte,
não foram pagos. “É um governo anti-democrático
e anti-popular, me assusta esse descaso pela alfabetização.
Estávamos avançando para a superação
do analfabetismo. Edmilson [Rodrigues, o ex-prefeito,
do PT] dizia que iria zerar, o que é muito difícil,
mas chegaríamos muito próximos a isso”,
acredita Adelaide Laís Parente Brasileiro, da
coordenação do Mova de Belém.
Segundo a coordenadora de Educação da
Secretaria Municipal de Educação e Cultura
(Semec) de Belém, foram criadas 17 turmas de
alfabetização, num programa piloto da
prefeitura, e serão abertas no segundo semestre
mais 247. Elas não estarão ligadas ao
Mova porque não foram encontrados relatórios
sobre a situação dos alunos que freqüentavam
os cursos de alfabetização do movimento.
“Se tivesse funcionado, teríamos um grupo
de professores vindo montar turma.
A gente ainda não entendeu direito o que é
o Mova, não está claro o que é
isso”, afirma Lucidea Santos. Quanto à
falta de pagamento dos educadores, diz que cerca de
100 deixaram de receber pelo mês de dezembro porque,
além do prefeito anterior não ter deixado
o dinheiro empenhado, não havia registro do trabalho
deles.
Em São Paulo, a cidade brasileira que apresenta
o maior número de analfabetos, chegando a 383
mil, a situação é bastante diferente.
De acordo com Ionilton Gomes Aragão, da coordenação
do Mova São Paulo, apesar da prefeitura de José
Serra (PSDB) afirmar que não vai fechar salas
de alfabetização de jovens e adultos,
a partir de fevereiro desse ano, mais de duzentas turmas
foram fechadas na capital paulista. Isso teria acontecido
porque elas não tinham 15 alunos, mínimo
exigido no convênio entre prefeitura e movimento.
Quando uma turma de alfabetização não
atinge esse mínimo, o representante da Secretaria
de Educação que visita a sala de aula
pode fazer um parecer desfavorável, e naquele
mês o dinheiro correspondente a essa turma não
é repassado. O educador precisa justificar as
ausências dos alunos, e essa explicação
pode ser aceita ou não por quem fiscaliza. Se
a situação se repetir por três meses
seguidos, e for concedido o parecer desfavorável
nas três vezes, a classe é fechada. Na
gestão anterior, a questão costumava ser
discutida entre educadores e os responsáveis
pela visita mensal. Atualmente, as justificativas não
têm sido aceitas pela Secretaria, sendo que muitas
dessas turmas, segundo Aragão, estavam com 12,
13 ou 14 alunos, número significativo.
“Há uma grande quantidade de salas que
receberam o parecer desfavorável e isso vai tirando
o oxigênio do movimento. Mesmo tendo trabalhado
o mês inteiro, os educadores não recebem
nem um centavo. Muitas salas perderam o convênio,
mas continuam funcionando porque são antigas;
algumas até com vinte anos de história.
É responsabilidade do poder público fiscalizar
seus investimentos, mas oito alunos também são
alunos e têm o direito de estudar, e o ideal são
as classes menores mesmo. Falta sensibilidade à
prefeitura”, avalia Aragão.
Outro problema é a formação continuada,
que na administração anterior ficava a
cargo de organizações não governamentais,
mas nessa gestão voltaram para a responsabilidade
das Coordenadorias de Educação. Até
o momento, de acordo com a coordenação
do Mova na cidade, pouquíssimos cursos de formação
têm sido realizados e em algumas regiões
eles têm acontecido mesmo sem a ajuda do governo.
A formação semanal prevê que uma
vez por semana seja feita a avaliação
do trabalho até ali e o planejamento das aulas
seguintes.
Nas gestões de Celso Pitta e Paulo Maluf, que
sucederam a prefeita Luiza Erundina, o Mova passou por
situação ainda pior, pois deixou de receber
recursos da Prefeitura por oito anos. Muitas salas foram
fechadas, mas outras, mesmo sem a ajuda do poder público,
conseguiram continuar. A tentativa agora, em São
Paulo, é a de transformar o Mova numa lei para
garantir sua continuidade independentemente da alternância
entre partidos na gestão da Prefeitura Municipal.
O movimento está discutindo essa proposta com
alguns vereadores, entre eles Paulo Fiorilo (PT), para
apresentar um projeto de lei à Câmara Municipal.
A Secretaria Municipal de Educação de
São Paulo afirma que está sendo feita
uma avaliação do Mova pelas coordenadorias
da cidade, para reorganizá-lo de acordo com a
freqüência dos alunos e a quantidade de salas
necessárias, seguindo as exigências do
contrato. Ela nega que haja uma política deliberada
de fechar as salas de alfabetização. Existe,
segundo ela, a recomendação de que seja
feito o acompanhamento e a orientação
dos educadores. “A maior parte das entidades são
idôneas. No meio delas, algumas não se
preocupam com a educação, mas com o convênio
e não atendem as especificações
do contrato”, justifica Erotides Pires de Amorim,
diretora da divisão de Educação
de Jovens e Adultos da Secretaria Municipal de Educação
de São Paulo. Ela também afirma que a
formação continuada está ocorrendo
normalmente em todas as coordenadorias.
Em Porto Alegre, por sua vez, o problema principal está
na desistência dos educadores que têm seus
pagamentos atrasados, segundo Paulo Renato Soares, da
coordenação do Mova na capital gaúcha.
Na gestão anterior, antes do educador começar
a dar aulas de alfabetização, passava
por duas semanas intensivas de formação,
para que entendesse melhor a proposta política
pedagógica do Mova. De acordo com Soares, esse
período foi reduzido para apenas uma semana,
a formação continuada semanal passou a
ocorrer uma vez a cada quinze dias e a assessoria em
sala de aula aos educadores foi extinta na gestão
de José Fogaça (PPS). Os Conselhos de
Economia Solidária, a partir dos quais haviam
se formado cooperativas de educadores populares, também
deixaram de existir. Por conta disso, diversas associações
de moradores que faziam o convênio e muitos educadores
estariam desistindo, resultando numa diminuição
drástica do número de salas de aula.
“Em 2003 e 2004, com o orçamento do município
a Prefeitura pagava os educadores, a formação
e o material didático. Nos dois anos foram 700
mil reais para a alfabetização. Para o
ano que vem, não tem nenhum rubrica indicando
de onde virá o dinheiro para isso. Não
sei o que vai ser do ano que vem, acho que eles vão
tentar garantir só a verba pelo Brasil Alfabetizado”,
denuncia Soares.
A Secretaria Municipal de Educação atribui
os atrasos nos pagamentos à ausência de
prestação de contas em alguns convênios.
“Não podemos pagar sem a relação
dos alunos, nem freqüência, nem declaração
das entidades. Alguns convênios terminaram, mas
vamos reativar com as entidades que desejarem”,
garante Leda Maria Seffrin, coordenadora de Educação
de Jovens e Adultos na Secretaria. Em relação
à assessoria aos educadores, ela confirma que
foi interrompida e diz que estão estruturando
um grupo para realizar esse trabalho. A formação
passou a ser quinzenal porque antes os educadores não
compareciam todas as semanas. Segundo Leda, nenhuma
turma foi iniciada até agora. Só estão
dando continuidade aos convênios pré-existentes.
Fonte:
Site Repórte Brasil Por: Fernanda
Sucupira – Agência Carta Maior
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