Jornalista
é demitido por matéria sobre trabalho
escravo no Brasil
Em 24/06/2005
Foi demitido nesta terça-feira (21) Cícero
Belmar o editor-executivo do Jornal do Commercio (JC),
de Pernambuco, por ter autorizado a publicação
de matéria sobre a libertação de
1.200 trabalhadores pelo governo federal na Destilaria
Gameleira (leia matéria “1.200 escravos
são libertados em usina no Mato Grosso”).
O JC – cujo proprietário, João Carlos
Paes Mendonça, é amigo pessoal de Eduardo
de Queiroz Monteiro, da Gameleira e da Folha de Pernambuco
– foi o único dos jornais do estado a veicular
a libertação dos trabalhadores, o que
teria “estremecido” a relação
de ambos os donos de mídia. A notícia,
contrária aos interesses de Monteiro, foi considerada
como uma campanha para denegrir as suas empresas e seu
jornal. De acordo com Belmar, a forma encontrada para
reatar a relação de amizade dos dois foi
demitindo-o.
O ex-editor-executivo autorizou a publicação
de matéria da Agência Globo, da qual o
JC é assinante de conteúdo, na sexta-feira
passada (17). Solicitou que a versão de Eduardo
de Queiroz Monteiro fosse checada. Porém, apesar
das várias tentativas, não houve retorno.
O JC não foi o único que ficou esperando
uma resposta – o que aconteceu também com
outros veículos de circulação nacional
que deram destaque à notícia, como a revista
Época e o jornal O Globo.
“Agimos com toda a ética, como manda o
mais simples manual de jornalismo”, afirma Belmar.
A repercussão negativa veio logo em seguida.
O proprietário da Gameleira estampou um editorial
(“Destilaria Gameleira – a anatomia de uma
injustiça”), ocupando boa parte da capa
da Folha de Pernambuco no dia 20. No texto, defende
a usina de álcool e os empregos por ela gerados,
nega que tenha utilizado trabalho escravo e critica
o Ministério do Trabalho e Emprego, que não
cassaria empregos ao invés de criá-los.
Reclama que a empresa não foi ouvida e chama
os veículos que deram noticiaram a libertação
de “mau jornalismo”. A demissão veio
no dia seguinte.
Belmar, que também é escritor, tem recebido
manifestações de apoio da sociedade civil
e de entidades da defesa da liberdade de imprensa. “Eu
poderia ter ficado extremamente angustiado se tivesse
saído por uma picaretagem ou por incompetência.
Fiquei no Jornal do Commercio por mais de 12 anos, ocupando
o cargo de editor-executivo por cerca de 10 anos. Minha
consciência está tranqüila. Fiz o
que qualquer jornalista faria”, completa. Justiça
decreta prisão preventiva de fazendeiro acusado
de explorar trabalho.
Fonte:
Site Repórter Brasil – por Leonardo Sakamotoz
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